sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ar de bulei

O povo daqui é uma delícia. Mesmo sem dentes, sorriem. Mesmo sujos, têm um ar simpático. E onde quer que vamos, olham-nos com curiosidade, como se nunca tivessem visto tal engenhoca. O que é estranho, pois Jakarta possui uma colecção de ocidentais de fazer inveja a qualquer país sob intervenção da ONU (excepto Dili, a cidade estado da ONU).

Onde sinto mais este escrutínio é no TransJakarta, substituto indonésio (bem pensado mas mal concretizado) de um metro que a cidade nunca vai poder ter, sob pena de afundar. O TransJakarta percorre a cidade de uma ponta a outra, através das suas vias principais, e é um autocarro com uma via de rodagem só para si. Não me refiro à faixa de Bus portuguesa, repleta de taxistas e condutores impacientes que vão "virar já a seguir". Esta faixa está dividida, e é efectivamente respeitada pelos outros condutores. É um paraíso no caos que é o trânsito de Jakarta. As estações no centro são próximas umas das outras, o que é bom, dado que o calor que assola a cidade em permanência (estes amenos 30 graus) equiparam o mínimo percurso a uma meia maratona.

Voltando ao que interessa: o escrutínio transjakartiano. Desde o primeiro momento em que entro no autocarro sinto sempre um par de olhos que me analisa. A cara do escrutinador, impávida, apenas denuncia o espanto pela duração do olhar que deixa cair em mim. Mira, volta a mirar, quase lhe ouço os pensamentos "Mas onde está o motorista deste bule aqui?". Bule (ler bulei). Somos nós. Os branquelas ocidentais. Aqueles que, pela ausência de passeios nesta cidade, pela amena temperatura já referida, e pelos miseráveis salários-padrão locais, se permitem contratar um motorista 24/7.

Posso ser bule, mas sou tudo menos rica. A viagem no TransJakarta é sempre uma experiência sociológica. Não existe qualquer noção de espaço pessoal. A falta de espaço dá muitas vezes lugar a uma fabulosa dança ao sabor das travagens do condutor, os corpos encostados uns aos outros, balançando de um lado para o outro numa sincronização invejável. E não esquecer a etiqueta indonésia que obriga todos a seguirem os chamamentos da natureza. Pois se o ar entra, também tem de sair. E o resto, que vá cheirar para outro lado.

Mito#2 Indonésia

O mito que se segue prende-se com a pergunta mais parva que alguma vez fiz a alguém. "Sendo a Indonésia um país muçulmano, haverá problema em partilhar casa com rapazes?". Indonésios, perdoem-me, eu não sabia o que perguntava.

Mito#2 São muçulmanos convictos

Dizer que 90% da população indonésia é muçulmana, é o mesmo que dizer que 90% da população portuguesa é católica. A maioria é tão praticante quanto as mulheres que acompanham e percebem, de facto, o mundo do futebol. 

A Indonésia padece então do mesmo mal que assola qualquer país de 1º mundo: uma verdadeira crise espiritual. O estado é laico, ao passo que qualquer indonésio pertence, efectivamente, a uma religião. É comum mudarem de religião. Ou a mais do que uma ao longo das suas vidas, já que é comum os indonésios transitarem entre religiões, da católica para a muçulmana, para a hindu, budista, (...enfim). Fazem-no com  a mesma facilidade com que saem de casa dos pais aos 14 para fazer o secundário junto de familiares que moram noutras cidades ou ilhas. Ou com a mesma facilidade com que as indonésias sacam ocidentais. Mas já voltaremos a isso.

Claro que esta descrição se encaixa melhor em Jakarta, que compreende cerca de 10 milhões de habitantes. Os restantes 230 milhões de indonésios dividem-se, uns mais seguidores dos preceitos religiosos que outros. Os poucos fundamentalistas existentes estão afiliados a grupos extremistas islâmicos, e operam contra a ostensividade do capitalismo (ie, atacam embaixadas ou hotéis). 


Os restantes são, como de resto todos os indonésios são, pacientes, pacíficos, e totalmente avessos ao conflito.



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mito#1 Indonésia

Dada a minha recente localização, é inevitável começar pela Indonésia. Preparem-se, porque haverá certamente muitos posts sobre este tema...

Quando para cá vim não tinha propriamente uma ideia formada sobre este país, como penso que a maioria dos portugueses/europeus não tem. O pouco que sabia provinha ou de contos romanceados de luas-de-mel idílicas em Bali (uma referência a ignorar, dada a ausência do par romântico), ou do óbvio acompanhamento mediático da situação de Timor Leste.

Vamos lá corrigir isso então.

Mito n#1: A Indonésia é um arquipélago, não é? Assim tipo a Madeira
Sem dúvida que a República da Indonésia é um arquipélago, que compreende milhares de ilhas, muitas das quais desabitadas ou com condições mínimas de vida. Mas dai a comparar esta grande nação à Republica das Bananas do Alberto João, ainda vai uma banana africana, que as da Madeira são demasiado pequenas.

A Madeira talvez seja mais facilmente comparável a Bali do que à nação indonésia. Atentem ao mapa abaixo, descaradamente roubado de uma apresentação da minha empresa. Isto é grande como tudo.

Isto é uma nota introdutória

Apesar da minha recente expatriação ter sido o motor para este blog, a verdade é que a ideia já existia há algum tempo, inclusivamente com parceiros e um formato mais "off the beaten track"... (sorry Filipe!).

E a ideia é: deixar no universo virtual, e sem qualquer pretensão, um blog com os meus conselhos e informações recolhidas nas várias viagens que faço, fiz e farei.

Sugestões são bem-vindas, por e-mail ou nos comentários. Se as publico ou não, isso é problema meu.

Enjoy!